O Senhor da História Pairando sobre o Fato

Meu Natal em Belém

1985, vigília de Natal. Estudante de Exegese, em Israel, me dirigi, lá pelas 22:00h, ao Campo dos Pastores. Naquela escuridão invernal, comecei a tocar a minha flauta. Eram cânticos natalinos, ungidos de frio e de paz. Eu estava embriagado do amor-ternura de Deus que visitava a nossa terra.

Escondido nesta escuridão, apenas iluminada de estrelas e lágrimas, um garoto árabe, ouvindo meu som, começou a cantarolar minhas melodias, traduzidas em sua língua natal. Naquela flauta mágica, fui tocando, tocando, até chegar a Belém.

Dentro da cidade, uma família árabe, ouvindo aquele som gostoso e manso, saiu para fora e me encontrou, em meu hábito franciscano, a celebrar um menino.  De imediato, a família me convidou para entrar e comer com eles um cabrito assado. Lá pelas tantas, acabei me refugiando dentro da gruta santa, onde chorei muito, sentindo a pobreza do nascimento do menino.

Num certo momento, pelos alto-falantes, soou uma ordem, dada em inglês, em francês, em hebreu e em árabe: «Por favor, queiram todos deixar o recinto da gruta!»

Todos saíram, menos um grupo de negros que, em suas roupas típicas e com seus turbantes, permaneciam, sentados no chão.  Se eles ficavam, eu também fiquei.

Tomado de curiosidade, queria ver o que iria acontecer. Quando todos se retiraram, os africanos iniciaram seus louvores silenciosos, sem uma única palavra. Apenas gestos e movimentos.

Tudo o que eles faziam, eu repetia, imitando-os em tudo:  Sentavam sobre os  calcanhares. Inclinavam-se até o chão. Levantavam-se. E eu fazendo tudo igual a eles.

Depois deitaram-se no chão e começaram a se rolar de lá para cá e de cá para lá. Eu também.  No final, sentamo-nos novamente para cantarmos em sua língua nativa os louvores ao menino recém-nascido.

Mas, quem mais cantava era minha alma: «Glória a Deus nas alturas e dentro de mim também! Paz também para o Brasil, de quem morro de saudades! Amém.»

 
Frei Felipinho, nasceu em Santa Rita de Caldas (MG), no dia 29/04/32. Aoa 27 anos de idade, Felipe Gabriel Alves, no dia 3 de janeiro de 1959, foi ordenado sacerdote franciscano pela OFM (Ordenação Franciscana dos Menores) em Petrópolis. Realizou vários trabalhos pastorais, extensa formação religiosa e autor de vários livros.

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Santuário de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa - Uberaba/MG.