Corajoso Lançar-se! Danilo Vitor Pena

O mundo nos educa ao comodismo. Do controle remoto aos serviços delivery, passando por dados mais complexos, como o nosso distanciamento da situação política nacional (o que desencadeia em um absurdo esquecimento da nossa condição de atores e autores da história), há décadas que estamos sendo formados para assumir a condição de massa comodamente acéfala.

Não é uma generalização, mas um fato que salta aos olhos mais perspicazes. Basta lançarmos este mesmo olhar para as Comunidades Cristãs. Ora, como “Igreja cheia” nunca foi sinônimo de “Igreja consciente”, é no núcleo das pastorais cristãs, junto às lideranças mais envolvidas é que podemos sentir a dificuldade em se manter um grupo ativo, atuante, corajoso nos muitos ministérios eclesiais.

Há um enfrentamento de vozes. Temos aquelas que nos convidam para um lançar-se no misterioso e insondável mistério divino – e nos compromissos que decorrem dele. Entretanto, também existem sussurros que seduzem para o afastamento, para a individualidade, para a omissão.

Em um contexto onde vozes contraditórias gritam e influenciam na formação da pessoa, enquanto ser social, religioso e cultural, será que resta uma tímida lacuna, para que as vozes internas, possam timidamente, lançar o seu convite e fazer o seu apelo, revelando-se como uma “terceira via?

Compreender tal vicissitude é compreender a vocação no hoje da história. A ação daquele que se sente vocacionado (do latim, chamado), exige uma postura nenhum pouco cômoda. Ao contrário! Ela depende de coragem, muita coragem para caminhar na contra-mão daquilo que vem sendo construído. O desejo que brota do coração dos homens e mulheres que saíram de seus lugares e lançaram-se aos desafios da vocação presbiteral/religiosa, possui como grande tônica a abertura generosa à docilidade do chamado divino. É sempre bom perceber que muitos jovens conseguem abraçar essa realidade tão plena e tão desafiadora.

A Igreja que nasceu em Pentecostes, alimenta-se da ação de pessoas de vanguarda, que saem a frente, colocam a mão no arado, enfrentam os medos e incertezas com a força e a esperança plantadas pelo “Pobre de Nazaré”. É o mesmo Espírito Santo, fonte da missão apostólica, que sopra a vida dos vocacionados. Mais que um sopro, é uma forte tempestade que irrompe a ordem do superficial, pede mudanças, incomoda, mas habilmente conduz ao novo... um novo reino, um novo mundo, um novo homem!

Com a mesma velocidade em que o tempo escorre pelos dedos, com a mesma rapidez em que “modas” são lançadas, conceitos derrubados e teorias construídas, com a mesma dinâmica em que a mulher e o homem contemporâneo vivem, é que são formados os desafios da Igreja. Ao vocacionado cabe contemplar essa pluralidade com uma mão na Bíblia e o coração voltado para os múltiplos e frutuosos dons, seivados pelo Espírito Santo. A cada desafio, um dom diferente é compilado na vida daquele que oferece o seu “sim”. Acreditar nessa possibilidade é estar em sintonia com um Espírito que é atualizado em cada diferente chão do nosso mundo.

Vocacionados cristãos são sinais de vida, lampejos de esperança que inevitavelmente nutrem-se no fulgor do Espírito Santo. Souberam ir além, não aceitaram a “fôrma” do comodismo e principalmente, enamoraram-se pelo evangelho de uma tal maneira, que repetem insistentemente para si mesmos: “seduziste-me Senhor e eu deixei-me seduzir”!

Danilo Vitor Pena
Seminarista da Arquidiocese de Uberaba – 1o Ano de teologia


Santuário da Medalha Milagrosa - Uberaba/MG.